reticência

- Eh, há quanto tempo não te via... Tudo bem contigo?
- Tudo, e contigo, tens passado bem?
- Tenho, olha... cá se vai vivendo...
- Então, o que tens feito?
- Olha, pá, tive um tempo desempregado, não foi fácil, mas depois lá arranjei um trabalho num armazém de bebidas, e por lá estou...
- Ah, então e estás a gostar? Está a correr bem?
- Está, então...
- Mas é uma coisa que tu gostas, ou...
- Pronto, pelo menos dá para ir ganhando algum ao fim do mês...
- Pois, e a família, como é que vai tudo...
- Tudo bem, tudo bem... Os putos vão bem na escola e pronto, vai tudo bem...
- Mas, não sei, pareces-me desanimado... Não pode ser assim, temos de viver a vida satisfeitos e contentes, senão não vale a pena!
- Desanimado? Não! E tu, o que tens feito?
- Eh pá, olha... pouco mais de nada... o mesmo de sempre. A fábrica onde trabalhava fechou, e desde aí ainda não arranjei mais nada. Isto está complicado!
- É, está muito complicado... Bom, é assim, então pronto, fica bem...
- Tu também, havemos de combinar qualquer coisa um dia destes...
- Boa, temos de fazer isso, os putos iam gostar.
- Então depois a gente fála-se.
- Ok, fica assim...

E gritar, não apetece? E sonhar... e tentar, não dá vontade? Que medo é este? Será que não há batatas suficientes? Será que o frio é mortal? O que será que os outros podem dizer... e fazer? Sou eu ou são os outros?
Dá vontade de ir ao teatro... conhecer a serra que se vê lá ao fundo... será que as batatas não chegam? Será que não se podem usar todos os objectos só mais uma vez?
Por que falta a vontade? Porque, falta mesmo a vontade! Mas será só vontade?
Será que eu preciso mesmo de ouvir as notícias, de saber que todas aquelas coisas acontecem todos os dias? Será que eu preciso de internet para me distrair e pesquisar sobre o mundo? Será que este blog alguma vez me disse alguma coisa que eu precisasse ouvir, ou que não soubesse já?
Então o que me falta saber?
Porquê é que eu não me entrego a quase nada do que faço? Porquê é que eu não quero fazer quase nada do que faço? Porquê é que é sempre tudo tão difícil, e surgem sempre tantos obstáculos?

Estas perguntas toda a gente as conhece. E as respostas? Onde ficaram elas? Como, e porquê é que este tipo de sensações e questões chegaram tão longe. Mais uma pergunta: porque insisto em mantê-las? Até quando?

Eu não preciso que me dêem as respostas; eu conheço-as profundamente...

E é sempre assim, tudo tão vazio... como quase todos os apelos... como este post, que se calhar está mal escrito e sem qualidade, e já vai muito longo e assim ninguém vai querer lê-lo... E devia ser mais profundo, como estes coisas têm de ser... Deveria ser como uma dádiva feita à cultura humana representada pela essência original da obra de um pensador ou de um artista (esta frase não é minha).
Não há nada que este post vá conseguir mudar.

Ou será que vai? Mas será suficiente? Será que serviu para alguém lê-lo? Será que serviu para mim escrevê-lo?...

Não queria acabar com uma pergunta... Não sei o que dizer... Queria ter uma frase bombástica e gloriosa para o final; que rematasse tudo isto...

Bom, fica assim... a gente vai-se falando,... e...

Vou estar mais atento.

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