quarta-feira, 9 de maio de 2007

olhar que não se vê

A espada que tenho nas mãos, não serve para matar. Cai-me aos pés, ainda reluzente. Ainda pegajosa. Ainda pronta a prosseguir. Mas parada. Pouco a pouco, empoeirada. Porque eu não lhe pego. Não me mexo. Não consigo.
Tento encontrar um olhar, algo que me observe. Aquele olhar, que me rodeou. Não o encontro. Do lado de lá chega-me apenas o vazio. O deserto ventoso, de areia, ou de gelo, ou de pedra. Vazio.
A espada sempre brilhante, quase coberta, a meus pés escondidos. Camuflados. Quietos há muito tempo. Para sempre. Estáticos. Também não se mexem. Com o tempo, encolhem. Eu sinto-os apertar. Já não os vejo. Nunca mais os vou ver. Nunca mais vou-me ver. Não consigo. Não quero conseguir. Tenho vontade de me abafar.
Sei que nunca mais vou encontrar aquele olhar que quis ver apagado. E que se extinguiu. Porquê? Porque estava robusto. Porque estava faminto. Porque estava louco. Tive medo. Eu! Eu tive medo. O olhar tinha coragem. Eu tive medo. Eu tenho medo.
Eu tenho medo de espadas. De todas as espadas.
A espada enferrujada. Os pés dissecados. As mãos. As mãos nunca mais existiram. Não quero falar das mãos. A culpa é delas. Não sei das mãos. Só sei que estão aqui. Não sei onde estão. As minhas mãos. Os olhos, os meus olhos. Que têm olhar. Ou será que não têm? Pergunto! Perguntem-me. Ou será que estão enferrujados?
Não adianta. A espada volta a reluzir. Os pés voltam a corar, as mãos, os braços, os olhos desenferrujam. A espada, limpo-a.
O olhar não volta. O meu olhar. Nunca o vi. Nunca mais alguém o viu.
Isto não é coragem.

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