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A mostrar mensagens de Maio, 2007

a chávena

Sentou-se e suspirou. Olhou a chávena e sorriu. Encheu-a de café e olhou para a janela. Bebeu um pouco e levantou-se. Caminhou pela sala e saiu para a açoteia. Sentiu o calor do sol e pousou a chávena no chão. Sentou-se na cadeira de bambu e fechou os olhos. Sentiu a calma e o conforto. Abriu os olhos e bebeu mais um pouco de café. Olhou o céu e sentiu um arrepio. Pousou a chávena e viu-se reflectida na vidraça. Observou-se por um instante e sentiu-se integra. Compôs os cabelos e pegou na chávena. Levantou-se e voltou a entrar em casa. Sentou-se no sofá e largou a chávena em cima da mesinha. Sorriu e adormeceu.

sapiens sapiens

Preciso de ajuda.
Nem eu sabia que sabia e podia dizer isto sem que o mundo se desenrolasse. Ontem disse-o. Nada de mal se libertou. Ninguém me fez mal. Nem houve agoiro que a mim se tivesse dirigido. E depois ainda consegui ir à praia: pelo caminho, as pessoas continuavam a colocar um pé à frente do outro para conseguirem andar, e a mostrar os dentes quando sorriem.
Ao lá chegar, as ondas continuavam a vir e a regressar ao seio húmido e salgado que as acolhe. Sentei-me na areia, e o seu toque era diferente. O sol era diferente; as nuvens esparsas; a brisa indelével.
E a suavidade que me extasia permanece saborosa.

reticência

- Eh, há quanto tempo não te via... Tudo bem contigo?
- Tudo, e contigo, tens passado bem?
- Tenho, olha... cá se vai vivendo...
- Então, o que tens feito?
- Olha, pá, tive um tempo desempregado, não foi fácil, mas depois lá arranjei um trabalho num armazém de bebidas, e por lá estou...
- Ah, então e estás a gostar? Está a correr bem?
- Está, então...
- Mas é uma coisa que tu gostas, ou...
- Pronto, pelo menos dá para ir ganhando algum ao fim do mês...
- Pois, e a família, como é que vai tudo...
- Tudo bem, tudo bem... Os putos vão bem na escola e pronto, vai tudo bem...
- Mas, não sei, pareces-me desanimado... Não pode ser assim, temos de viver a vida satisfeitos e contentes, senão não vale a pena!
- Desanimado? Não! E tu, o que tens feito?
- Eh pá, olha... pouco mais de nada... o mesmo de sempre. A fábrica onde trabalhava fechou, e desde aí ainda não arranjei mais nada. Isto está complicado!
- É, está muito complicado... Bom, é assim, então pronto, fica bem...
- Tu também, havemos de combinar qual…

imperdidos e desachados

Perdi o que tinha para dizer. Procurei por cima e por baixo e por dentro e por fora de todas as coisas... As coisas que tudo são, as coisas que não são tudo.
Por isso expresso-me onde vês, e como sentes. Sem outros sentidos incoerentes, no ecrã que podes ver e nunca palpar.
Então resta-me ir devagar, e tentar chegar sem traços de ideias furtivas, ou furtadas... o que todas são... por mais originais que se desmintam.
Não faz sentido ir a divagar.
Então torno-me mais subjectivo.
Faço o que não sou e vendo o que não vejo.
Tremo pela paz que não selecciono. E colecciono vocações interpostas em sinais vanguardistas... aparentemente, aparentemente perfeccionistas.
Acho-me disfrutável.

o que se sabe, sem saber

Só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início.
Para que todos saibam, eu explico: não há questões, mas dúvidas. Dúvidas que se sentem. Palavras que ficam. Foge-se delas. Ri-se. Porque não se chora?
Depois, adiante, volta-se ao mesmo, e fica-se. E mexe-se em tudo, ou quase. Pelo menos no que se pode. No que está mais perto.
Só com as palavras posso explicar o que sinto. Não! Estou enganado. Também o posso fazer com gestos. E com sinais. Ah, e posso pegar num lápis... Mas não. Não vale a pena. Quero apenas segredar, e é tudo... e espero...
Mas, e se voltar ao início? E disser que só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início…

a caixa

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A caixa frenética.
A caixa caquéctica.
A caixa emblemática, sorumbática e indisposta.
Para nós, por todos nós interposta e imposta.
E quem não gosta, e prefere a liberdade.
A que não tem idade nem cidade.
Vive vazio, porém ao devir da igualdade da visão estética.

olhar que não se vê

A espada que tenho nas mãos, não serve para matar. Cai-me aos pés, ainda reluzente. Ainda pegajosa. Ainda pronta a prosseguir. Mas parada. Pouco a pouco, empoeirada. Porque eu não lhe pego. Não me mexo. Não consigo.
Tento encontrar um olhar, algo que me observe. Aquele olhar, que me rodeou. Não o encontro. Do lado de lá chega-me apenas o vazio. O deserto ventoso, de areia, ou de gelo, ou de pedra. Vazio.
A espada sempre brilhante, quase coberta, a meus pés escondidos. Camuflados. Quietos há muito tempo. Para sempre. Estáticos. Também não se mexem. Com o tempo, encolhem. Eu sinto-os apertar. Já não os vejo. Nunca mais os vou ver. Nunca mais vou-me ver. Não consigo. Não quero conseguir. Tenho vontade de me abafar.
Sei que nunca mais vou encontrar aquele olhar que quis ver apagado. E que se extinguiu. Porquê? Porque estava robusto. Porque estava faminto. Porque estava louco. Tive medo. Eu! Eu tive medo. O olhar tinha coragem. Eu tive medo. Eu tenho medo.
Eu tenho medo de espadas. De todas as…

quase nada

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É quase nada; e é quase tudo. Não se explica. É como um dia de sol.

livre para mim

Apetece-me a brancura e a frescura do papel. Sem linhas. Para que possa divagar. Com leveza. No sentido que quiser. Orientando tudo pelas minhas opções. Coerentes com aquilo em que acredito. Regidas pela sensibilidade que me chega e que procuro sempre reconhecer, até nas mais pequenas ondulações, que me são transmitidas pela vida. Que percebo ao percorrer os vales profundos; as planícies férteis; ao escalar as montanhas que apenas têm para oferecer aquele ar rarefeito, de difícil compreensão, mesmo apesar de estar mais próximo do céu. Mas que me obriga a respirar com mais calma. Como única forma de aproveitar cada molécula de oxigénio. Que causa tonturas, que me faz deitar, e voltar a olhar o céu, que, entretanto, quase esqueci.