terça-feira, 29 de maio de 2007

a chávena

Sentou-se e suspirou. Olhou a chávena e sorriu. Encheu-a de café e olhou para a janela. Bebeu um pouco e levantou-se. Caminhou pela sala e saiu para a açoteia. Sentiu o calor do sol e pousou a chávena no chão. Sentou-se na cadeira de bambu e fechou os olhos. Sentiu a calma e o conforto. Abriu os olhos e bebeu mais um pouco de café. Olhou o céu e sentiu um arrepio. Pousou a chávena e viu-se reflectida na vidraça. Observou-se por um instante e sentiu-se integra. Compôs os cabelos e pegou na chávena. Levantou-se e voltou a entrar em casa. Sentou-se no sofá e largou a chávena em cima da mesinha. Sorriu e adormeceu.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

sapiens sapiens

Preciso de ajuda.
Nem eu sabia que sabia e podia dizer isto sem que o mundo se desenrolasse. Ontem disse-o. Nada de mal se libertou. Ninguém me fez mal. Nem houve agoiro que a mim se tivesse dirigido. E depois ainda consegui ir à praia: pelo caminho, as pessoas continuavam a colocar um pé à frente do outro para conseguirem andar, e a mostrar os dentes quando sorriem.
Ao lá chegar, as ondas continuavam a vir e a regressar ao seio húmido e salgado que as acolhe. Sentei-me na areia, e o seu toque era diferente. O sol era diferente; as nuvens esparsas; a brisa indelével.
E a suavidade que me extasia permanece saborosa.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

reticência

- Eh, há quanto tempo não te via... Tudo bem contigo?
- Tudo, e contigo, tens passado bem?
- Tenho, olha... cá se vai vivendo...
- Então, o que tens feito?
- Olha, pá, tive um tempo desempregado, não foi fácil, mas depois lá arranjei um trabalho num armazém de bebidas, e por lá estou...
- Ah, então e estás a gostar? Está a correr bem?
- Está, então...
- Mas é uma coisa que tu gostas, ou...
- Pronto, pelo menos dá para ir ganhando algum ao fim do mês...
- Pois, e a família, como é que vai tudo...
- Tudo bem, tudo bem... Os putos vão bem na escola e pronto, vai tudo bem...
- Mas, não sei, pareces-me desanimado... Não pode ser assim, temos de viver a vida satisfeitos e contentes, senão não vale a pena!
- Desanimado? Não! E tu, o que tens feito?
- Eh pá, olha... pouco mais de nada... o mesmo de sempre. A fábrica onde trabalhava fechou, e desde aí ainda não arranjei mais nada. Isto está complicado!
- É, está muito complicado... Bom, é assim, então pronto, fica bem...
- Tu também, havemos de combinar qualquer coisa um dia destes...
- Boa, temos de fazer isso, os putos iam gostar.
- Então depois a gente fála-se.
- Ok, fica assim...

E gritar, não apetece? E sonhar... e tentar, não dá vontade? Que medo é este? Será que não há batatas suficientes? Será que o frio é mortal? O que será que os outros podem dizer... e fazer? Sou eu ou são os outros?
Dá vontade de ir ao teatro... conhecer a serra que se vê lá ao fundo... será que as batatas não chegam? Será que não se podem usar todos os objectos só mais uma vez?
Por que falta a vontade? Porque, falta mesmo a vontade! Mas será só vontade?
Será que eu preciso mesmo de ouvir as notícias, de saber que todas aquelas coisas acontecem todos os dias? Será que eu preciso de internet para me distrair e pesquisar sobre o mundo? Será que este blog alguma vez me disse alguma coisa que eu precisasse ouvir, ou que não soubesse já?
Então o que me falta saber?
Porquê é que eu não me entrego a quase nada do que faço? Porquê é que eu não quero fazer quase nada do que faço? Porquê é que é sempre tudo tão difícil, e surgem sempre tantos obstáculos?

Estas perguntas toda a gente as conhece. E as respostas? Onde ficaram elas? Como, e porquê é que este tipo de sensações e questões chegaram tão longe. Mais uma pergunta: porque insisto em mantê-las? Até quando?

Eu não preciso que me dêem as respostas; eu conheço-as profundamente...

E é sempre assim, tudo tão vazio... como quase todos os apelos... como este post, que se calhar está mal escrito e sem qualidade, e já vai muito longo e assim ninguém vai querer lê-lo... E devia ser mais profundo, como estes coisas têm de ser... Deveria ser como uma dádiva feita à cultura humana representada pela essência original da obra de um pensador ou de um artista (esta frase não é minha).
Não há nada que este post vá conseguir mudar.

Ou será que vai? Mas será suficiente? Será que serviu para alguém lê-lo? Será que serviu para mim escrevê-lo?...

Não queria acabar com uma pergunta... Não sei o que dizer... Queria ter uma frase bombástica e gloriosa para o final; que rematasse tudo isto...

Bom, fica assim... a gente vai-se falando,... e...

Vou estar mais atento.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

imperdidos e desachados

Perdi o que tinha para dizer. Procurei por cima e por baixo e por dentro e por fora de todas as coisas... As coisas que tudo são, as coisas que não são tudo.
Por isso expresso-me onde vês, e como sentes. Sem outros sentidos incoerentes, no ecrã que podes ver e nunca palpar.
Então resta-me ir devagar, e tentar chegar sem traços de ideias furtivas, ou furtadas... o que todas são... por mais originais que se desmintam.
Não faz sentido ir a divagar.
Então torno-me mais subjectivo.
Faço o que não sou e vendo o que não vejo.
Tremo pela paz que não selecciono. E colecciono vocações interpostas em sinais vanguardistas... aparentemente, aparentemente perfeccionistas.
Acho-me disfrutável.

sábado, 12 de maio de 2007

o que se sabe, sem saber

Só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início.
Para que todos saibam, eu explico: não há questões, mas dúvidas. Dúvidas que se sentem. Palavras que ficam. Foge-se delas. Ri-se. Porque não se chora?
Depois, adiante, volta-se ao mesmo, e fica-se. E mexe-se em tudo, ou quase. Pelo menos no que se pode. No que está mais perto.
Só com as palavras posso explicar o que sinto. Não! Estou enganado. Também o posso fazer com gestos. E com sinais. Ah, e posso pegar num lápis... Mas não. Não vale a pena. Quero apenas segredar, e é tudo... e espero...
Mas, e se voltar ao início? E disser que só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início...
Como é fácil falar do que não se sabe! E eu sei do que estou a falar...

sexta-feira, 11 de maio de 2007

a caixa

A caixa frenética.
A caixa caquéctica.
A caixa emblemática, sorumbática e indisposta.
Para nós, por todos nós interposta e imposta.
E quem não gosta, e prefere a liberdade.
A que não tem idade nem cidade.
Vive vazio, porém ao devir da igualdade da visão estética.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

olhar que não se vê

A espada que tenho nas mãos, não serve para matar. Cai-me aos pés, ainda reluzente. Ainda pegajosa. Ainda pronta a prosseguir. Mas parada. Pouco a pouco, empoeirada. Porque eu não lhe pego. Não me mexo. Não consigo.
Tento encontrar um olhar, algo que me observe. Aquele olhar, que me rodeou. Não o encontro. Do lado de lá chega-me apenas o vazio. O deserto ventoso, de areia, ou de gelo, ou de pedra. Vazio.
A espada sempre brilhante, quase coberta, a meus pés escondidos. Camuflados. Quietos há muito tempo. Para sempre. Estáticos. Também não se mexem. Com o tempo, encolhem. Eu sinto-os apertar. Já não os vejo. Nunca mais os vou ver. Nunca mais vou-me ver. Não consigo. Não quero conseguir. Tenho vontade de me abafar.
Sei que nunca mais vou encontrar aquele olhar que quis ver apagado. E que se extinguiu. Porquê? Porque estava robusto. Porque estava faminto. Porque estava louco. Tive medo. Eu! Eu tive medo. O olhar tinha coragem. Eu tive medo. Eu tenho medo.
Eu tenho medo de espadas. De todas as espadas.
A espada enferrujada. Os pés dissecados. As mãos. As mãos nunca mais existiram. Não quero falar das mãos. A culpa é delas. Não sei das mãos. Só sei que estão aqui. Não sei onde estão. As minhas mãos. Os olhos, os meus olhos. Que têm olhar. Ou será que não têm? Pergunto! Perguntem-me. Ou será que estão enferrujados?
Não adianta. A espada volta a reluzir. Os pés voltam a corar, as mãos, os braços, os olhos desenferrujam. A espada, limpo-a.
O olhar não volta. O meu olhar. Nunca o vi. Nunca mais alguém o viu.
Isto não é coragem.

terça-feira, 8 de maio de 2007

quase nada


É quase nada; e é quase tudo. Não se explica. É como um dia de sol.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

livre para mim

Apetece-me a brancura e a frescura do papel. Sem linhas. Para que possa divagar. Com leveza. No sentido que quiser. Orientando tudo pelas minhas opções. Coerentes com aquilo em que acredito. Regidas pela sensibilidade que me chega e que procuro sempre reconhecer, até nas mais pequenas ondulações, que me são transmitidas pela vida. Que percebo ao percorrer os vales profundos; as planícies férteis; ao escalar as montanhas que apenas têm para oferecer aquele ar rarefeito, de difícil compreensão, mesmo apesar de estar mais próximo do céu. Mas que me obriga a respirar com mais calma. Como única forma de aproveitar cada molécula de oxigénio. Que causa tonturas, que me faz deitar, e voltar a olhar o céu, que, entretanto, quase esqueci.

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