pontos de luz

As rodas do carro coçavam as bermas mal acabadas, de pedras soltas, da sinuosa estrada que sobe e desce, estreita, quase camuflada pelo arvoredo, através dos montes que separam a pequena e pobre aldeia da cidade.
O velho Mendes, homem de tradições e costumes enraizados, sempre se entregou a velhos hábitos, que não abandona, por nada deste mundo. Deita-se com o sol e levanta-se com os primeiros raios de luz de cada dia, sem excepção. Na sua casa, não há luz eléctrica, apenas anacrónicos candeeiros a petróleo e velas de parafina. A água, vai-se buscar ao poço. Maria, sua mulher, é quem mais sofre com tudo isto; porque não aceita, porque não é uma sua escolha consciente. Sujeita-se a todos estes trabalhos, numa época em que já toda a gente tem frigorífico e máquina de lavar, mesmo ali, na aldeia.
E o acabado carro do filho mais velho de Mendes, continuava a subir o monte mais alto. Que é também o último. Depois, é só descerem para o vale, para o tímido e suave lugarejo.
- Ainda falta muito?
O velhote já estava farto de tantos balanços. Àquela hora da noite, já deveria estar a dormir, e há muito... E depois, sem dúvida que, o dia não lhe correra bem. Pela primeira vez em toda a sua vida, tinha ido a um hospital, depois de uma súbita síncope, ainda mal esclarecida. Lá disseram-lhe que não era nada. Estava tudo bem; era “um homem rijo”. Ele sabia que estava bem, nem precisava ter ouvido isso da boca do doutor. Se não tivesse ficado inconsciente, nunca teria permitido que o tirassem da sua terra, ainda por cima, sem necessidade.
Por isso balanceava-se, casmurro, junto com o automóvel, numa estranha harmonia.
- A seguir àquela curva, começamos a descer.
Mendes abriu mais os olhos, para ver bem se era verdade o que o filho lhe dissera. E ainda bem que o fez. Teve, talvez, a maior surpresa da sua vida. Depois da curva, pôde contemplar um mundo, até aí desconhecido.
O vale da aldeia é amplo, com vastos terrenos de cultivo, o rio e a povoação, lá ao fundo. A descida era mais iluminada, menos rodeada por vegetação alta, cerrada. E Mendes respirou fundo; e arregalou o olhar, de forma diferente. Até o filho reparou que se estava a passar algo com o pai, mas que não compreendeu.
Pela primeira vez na vida, o velho se apercebeu de todo o esplendor de um céu estrelado. Toda aquela superfície polvilhada de pontos de luz, que há anos não via e que mal conhecia. Do fundo do seu vale, e do seu sono protegido da luz pelas portadas que ainda impediam o sol, tinha uma perspectiva diferente, pouco realista, do céu que todas as noites se abre sobre a sua cabeça.
E mais; dali também pôde ver, já sem ligar ao constante bater das rodas do carro nos buracos da estrada, um outro tipo de estrelas, que enfeitam as montanhas, ao longe: os pontos de luz revelados pelos postes de iluminação das localidades mais distantes. Até a sua própria aldeia estava diferente. Tão iluminada, no meio da escuridão nocturna.
A partir daquela noite, apesar de se continuar a deitar cedo, muitas vezes começou a esperar pelo escurecer, só para poder admirar as estrelas por uns instantes. Ao seu lado estava sempre Maria, feliz, mesmo sem perceber o que de diferente se passava com a cabeça do marido.
Depois iam-se deitar, e Mendes, depois de ver as luzes do céu, sempre com a certeza de que um dia iria voltar a ver toda a beleza da luz que os Homens podem proporcionar.

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