quarta-feira, 11 de abril de 2007

inactividade activa

Há horas sentado no seu pequeno globo, pelo menos se comparado com o tamanho da sua vontade, Damásio observa tudo o que se passa lá em baixo, o que acaba por proporcionar uma imagem surreal para quem está de fora, e vê alguém com as pernas muito pequenas, com os pés à proporção, e depois com um tronco muito comprido e uns longos braços, levantados para o céu. A cabeça, tão depressa do tamanho de uma noz, como, de repente, se torna na maior porção do seu corpo.
Depois tudo termina e o velho Damásio vagueia pelas estradas ladeadas de matos, florestas, hortas e pomares, que sempre desembocam nas vilas e cidades.
Em vida supostamente activa, pressupondo que depois surge o momento reservado à quietação, foi sapateiro. Talvez por isso tenha aprendido a usar as botas que trás calçadas com tanta eficácia. E assim percorre, com à vontade, sem receio de ficar apeado, longas distancias, todos os dias.
Quando lhe perguntam se nunca se cansa, responde que “Não”, que “Estou agora calmamente a descansar de todo o período de actividade, passado anos a fio no interior bafiento de quatro paredes escuras.”
E foram muitos, os sapatos e as botas, e outros pares de calçados que concertou. Mas só agora se deu conta que trocara as voltas a si mesmo: só agora consegue perceber que primeiro se devia ter sentado no globo e percorrido todos os matos, para que depois pudesse participar numa vida activa mais útil.
Talvez por isso ainda chore, o velho Damásio, mas não de tristeza.

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