sábado, 28 de abril de 2007

em vias de extinção









Será que este é um objecto em vias de extinção? Será que depois do petróleo acabar ainda se vai utilizar este tipo de objecto para armazenar, por exemplo, biodiesel? Será que já ouvi alguém dizer "que bom o petróleo vai acabar", se a utilização deste o converte num poluidor de fortíssimo impacto? Será que o petóleo não fazia falta lá no sítio onde ele estava?

domingo, 22 de abril de 2007

existência secular

Dia após dia, tendo a lua, o sol, as nuvens, as estrelas, o vento, e toda essa lista interminável de essências por companhia, e mesmo assim, tão só. Tão esquecida do alto da sua existência secular, tantas vezes realçada pela degradação dos seus pedaços, que se desmoronam, involuntários a tudo o que vêem; e que sentem. Talvez porque não compreendem. Porque se limitam a resistir até ao fim das suas forças, cada vez mais próximas do limite, que acabam por deixar as fraquezas, cada vez mais evidentes.
E ninguém perdoa ninguém. A essência não reconhece a periferia, que não acredita estar ligada a um eixo. E todos se criticam, sem que haja espaço para a gratidão, pelo esforço que, afinal, todos produzem, mas de forma isolada.
E assim, os telhados com as vigas descobertas deixam o soalho apodrecer. Provocam uma corrente de ar que as janelas não seguram, que as portas não detêm.
Todos estimulam um desarranjo, que conciliado com o pó, não deixa sossegar os móveis; nem as louças, que se estilhaçam; nem os tecidos, que se rasgam.
Só fica o desperdício. O passado, que já ninguém se lembra de compreender, que já quase se esvaiu no nada, por estar tão rodeado de coisa nenhuma.
Só ficou um detrito da mansão que já mal se vê lá em baixo, ao fundo da rua, quase coberta pela vegetação, que só por si, é muito mais vigorosa e resplandecente. Muito mais admirável. Com muito mais para dizer. Porque dentro dela corre seiva. A diferença é que ela o sabe.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

a comunicação



A comunicação de palavras.

terça-feira, 17 de abril de 2007

isto é intolerância

Ele não tolerava números ímpares. Em qualquer ocasião. Não conseguia estar numa fila e perceber que era o número onze, ou o sete. Por isso, o que fazia, era esperar que chegasse o momento em que a última pessoa fosse atendida, para se pôr atrás dela: assim eram dois.
Mas logo tinha de se ir embora. Quando chegasse a sua vez, seria o número um.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

a visão




A visão que persiste.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

inactividade activa

Há horas sentado no seu pequeno globo, pelo menos se comparado com o tamanho da sua vontade, Damásio observa tudo o que se passa lá em baixo, o que acaba por proporcionar uma imagem surreal para quem está de fora, e vê alguém com as pernas muito pequenas, com os pés à proporção, e depois com um tronco muito comprido e uns longos braços, levantados para o céu. A cabeça, tão depressa do tamanho de uma noz, como, de repente, se torna na maior porção do seu corpo.
Depois tudo termina e o velho Damásio vagueia pelas estradas ladeadas de matos, florestas, hortas e pomares, que sempre desembocam nas vilas e cidades.
Em vida supostamente activa, pressupondo que depois surge o momento reservado à quietação, foi sapateiro. Talvez por isso tenha aprendido a usar as botas que trás calçadas com tanta eficácia. E assim percorre, com à vontade, sem receio de ficar apeado, longas distancias, todos os dias.
Quando lhe perguntam se nunca se cansa, responde que “Não”, que “Estou agora calmamente a descansar de todo o período de actividade, passado anos a fio no interior bafiento de quatro paredes escuras.”
E foram muitos, os sapatos e as botas, e outros pares de calçados que concertou. Mas só agora se deu conta que trocara as voltas a si mesmo: só agora consegue perceber que primeiro se devia ter sentado no globo e percorrido todos os matos, para que depois pudesse participar numa vida activa mais útil.
Talvez por isso ainda chore, o velho Damásio, mas não de tristeza.

terça-feira, 10 de abril de 2007

a imensidão do ser

Pela imensidão de ser alguém que é só aquilo que é.
E não mais aquilo que imagina; que é possível ser num só ser.
Sem que depois de tudo isto, se torne mais possível ser alguém que imagina, que pela imensidão se torne possível... não ser!

domingo, 8 de abril de 2007

a viagem

A viagem (e no tempo) a Eburobrittium - cidade Romana junto a Óbidos.

sábado, 7 de abril de 2007

deitada sobre si mesma

Deitada sobre si mesma, no seu corpo de riscas brancas, como zebra, inquieta-se com as acções disformes que testemunha com vil desagrado.
A chuva escorre junto aos passeios de calcário, de um lado, e de cimento do outro; desce a ladeira, como descem os automóveis com mil pressas, e poucas contemplações.
Tenta comunicar com a sua companheira, que se alonga um pouco mais acima, tão surda como os demais, apoiada por sinais de luzes verdes e vermelhas; e verdes, amarelas e vermelhas, onde ninguém pára se não for obrigado, e é esse o mistério.
Onde os sinais não dizem para parar, por vezes os automóveis param, num acto natural de respeito e civismo; onde os sinais dizem que se deve parar, ninguém o faz a menos que seja obrigado.
Deitada sobre si mesma, sente a chuva e o sol, e todos os elementos.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

o lugar



O lugar comum e eternamente belo.

terça-feira, 3 de abril de 2007

pontos de luz

As rodas do carro coçavam as bermas mal acabadas, de pedras soltas, da sinuosa estrada que sobe e desce, estreita, quase camuflada pelo arvoredo, através dos montes que separam a pequena e pobre aldeia da cidade.
O velho Mendes, homem de tradições e costumes enraizados, sempre se entregou a velhos hábitos, que não abandona, por nada deste mundo. Deita-se com o sol e levanta-se com os primeiros raios de luz de cada dia, sem excepção. Na sua casa, não há luz eléctrica, apenas anacrónicos candeeiros a petróleo e velas de parafina. A água, vai-se buscar ao poço. Maria, sua mulher, é quem mais sofre com tudo isto; porque não aceita, porque não é uma sua escolha consciente. Sujeita-se a todos estes trabalhos, numa época em que já toda a gente tem frigorífico e máquina de lavar, mesmo ali, na aldeia.
E o acabado carro do filho mais velho de Mendes, continuava a subir o monte mais alto. Que é também o último. Depois, é só descerem para o vale, para o tímido e suave lugarejo.
- Ainda falta muito?
O velhote já estava farto de tantos balanços. Àquela hora da noite, já deveria estar a dormir, e há muito... E depois, sem dúvida que, o dia não lhe correra bem. Pela primeira vez em toda a sua vida, tinha ido a um hospital, depois de uma súbita síncope, ainda mal esclarecida. Lá disseram-lhe que não era nada. Estava tudo bem; era “um homem rijo”. Ele sabia que estava bem, nem precisava ter ouvido isso da boca do doutor. Se não tivesse ficado inconsciente, nunca teria permitido que o tirassem da sua terra, ainda por cima, sem necessidade.
Por isso balanceava-se, casmurro, junto com o automóvel, numa estranha harmonia.
- A seguir àquela curva, começamos a descer.
Mendes abriu mais os olhos, para ver bem se era verdade o que o filho lhe dissera. E ainda bem que o fez. Teve, talvez, a maior surpresa da sua vida. Depois da curva, pôde contemplar um mundo, até aí desconhecido.
O vale da aldeia é amplo, com vastos terrenos de cultivo, o rio e a povoação, lá ao fundo. A descida era mais iluminada, menos rodeada por vegetação alta, cerrada. E Mendes respirou fundo; e arregalou o olhar, de forma diferente. Até o filho reparou que se estava a passar algo com o pai, mas que não compreendeu.
Pela primeira vez na vida, o velho se apercebeu de todo o esplendor de um céu estrelado. Toda aquela superfície polvilhada de pontos de luz, que há anos não via e que mal conhecia. Do fundo do seu vale, e do seu sono protegido da luz pelas portadas que ainda impediam o sol, tinha uma perspectiva diferente, pouco realista, do céu que todas as noites se abre sobre a sua cabeça.
E mais; dali também pôde ver, já sem ligar ao constante bater das rodas do carro nos buracos da estrada, um outro tipo de estrelas, que enfeitam as montanhas, ao longe: os pontos de luz revelados pelos postes de iluminação das localidades mais distantes. Até a sua própria aldeia estava diferente. Tão iluminada, no meio da escuridão nocturna.
A partir daquela noite, apesar de se continuar a deitar cedo, muitas vezes começou a esperar pelo escurecer, só para poder admirar as estrelas por uns instantes. Ao seu lado estava sempre Maria, feliz, mesmo sem perceber o que de diferente se passava com a cabeça do marido.
Depois iam-se deitar, e Mendes, depois de ver as luzes do céu, sempre com a certeza de que um dia iria voltar a ver toda a beleza da luz que os Homens podem proporcionar.

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