de confiança

A todo o redor, não se vê ninguém. Nenhum sinal de humanidade. Não se avistam cidades, nem estradas, nem pontes, nem campos agrícolas.
Apenas estão presentes: o céu brilhante e os pouco vestidos montes rochosos, misturados com porções de terra acolhedora.
São serras brancas e cinzentas, com salpicos de verde-escuro, caídos do pincel molhado na lata da vegetação espinhosa e rasteira.
Respira-se disponibilidade: entre as plantas, as aves, os insectos, os roedores, e por vezes, também algum mamífero de maiores dimensões. E sempre a disponibilidade para viver e para cumprir as leis que seguram os pratos da balança.
É tudo normalidade, e de resto, mais nada. Porque já existe tudo o que é necessário. Por isso volto contente e com segurança, para o interior das galerias que tenho vindo a construir, desde que me conheço por toupeira.
Podem confiar em mim. Poderão pensar que não vejo sinal de humanidade por ser cega, mas não! Eu sei que ela não existe, porque não se faz sentir.”
O professor premiu o botão de stop, que deteve a fita da cassete, e virou-se para a turma, que continuava tão imóvel e interrogativa, como quando ouvia a voz dengosa que pretendia ser de uma toupeira. Depois, adivinhando os pensamentos de todos, declarou:
- Talvez a toupeira estivesse cercada por humanos. Talvez vivesse no centro de uma grande capital. Talvez os Homens estejam tão fora da sua essência, que os bichos pensam que estão sozinhos, e assumam todas as carências como provas a cumprir. Talvez os animais e as plantas, no seu interior, tenham transformado todas as agressões humanas em normalidade. Se foi isso, talvez eles venham a perceber o erro que cometeram. Se foi isso, talvez nós ainda possamos vasculhar a abafada ingenuidade que nos percorre.

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