sábado, 10 de março de 2007

correr pelas folhas e pelos tempos

O verão caía quando as folhas secas das árvores, parte incompletável da colecção de Outono, subiam a rua, sopradas pelo vento e iluminadas pelo pronunciado sol de mudança de estação, de fim ou de princípio, que brilhava irrepreensível no céu azul; eram os últimos e incomparáveis dias de claridade ainda morna, já que o ano revelar-se-ia vorazmente chuvoso e esquecido do verão de S. Martinho.
Atrás das folhas corria o Sr. Gonçalves, sem se lembrar do reumático e da pança proeminente que ameaçava desabar a qualquer momento. Subiu, e logo desceu, com a mudança do vento, que passara a soprar mais forte. Finalmente cansado, deitou-se sobre a relva, por entre os canteiros.
Depois reparou nos pombos que adejaram famintos para uma velhinha que todos os dias esmigalhava pão no passeio. Guarnecido de novas forças, o Sr. Gonçalves levantou-se e correu para as aves que fugiram, e logo regressaram, atraídas pela comida... fresca?
A velhota reclamava:
- Ah, meu maroto, que me estás a espantar os bichos.
Ele riu e afastou-se um pouco. Atravessou a rua para o outro lado, onde ficava a loja do Sr. Francisco, que brincava com pequenos carrinhos de ferro, que voavam inexplicavelmente. O Sr. Gonçalves olhou lá para dentro, através das vidraças da montra, mas resolveu não entrar.
Subiu a rua. Parou junto ao prédio mais alto de toda a cidade. Fechou os olhos. Apertou o nó da gravata e empurrou a enorme porta de vidro enquanto pensava se o elevador que o levava todos os dias ao seu escritório no nono andar, já estaria reparado.

1 comentário:

Susana disse...

Olá primo!
Tens muita criatividade, sem dúvida! Já te sabia criativo noutras áreas, mas na escrita é novidade para mim. Continua!
Queria enviar-te um e-mail para falar de outro assunto, podes enviar-me um sms com o endereço?!
Beijocas
Susana Marques

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