correr pelas folhas e pelos tempos

O verão caía quando as folhas secas das árvores, parte incompletável da colecção de Outono, subiam a rua, sopradas pelo vento e iluminadas pelo pronunciado sol de mudança de estação, de fim ou de princípio, que brilhava irrepreensível no céu azul; eram os últimos e incomparáveis dias de claridade ainda morna, já que o ano revelar-se-ia vorazmente chuvoso e esquecido do verão de S. Martinho.
Atrás das folhas corria o Sr. Gonçalves, sem se lembrar do reumático e da pança proeminente que ameaçava desabar a qualquer momento. Subiu, e logo desceu, com a mudança do vento, que passara a soprar mais forte. Finalmente cansado, deitou-se sobre a relva, por entre os canteiros.
Depois reparou nos pombos que adejaram famintos para uma velhinha que todos os dias esmigalhava pão no passeio. Guarnecido de novas forças, o Sr. Gonçalves levantou-se e correu para as aves que fugiram, e logo regressaram, atraídas pela comida... fresca?
A velhota reclamava:
- Ah, meu maroto, que me estás a espantar os bichos.
Ele riu e afastou-se um pouco. Atravessou a rua para o outro lado, onde ficava a loja do Sr. Francisco, que brincava com pequenos carrinhos de ferro, que voavam inexplicavelmente. O Sr. Gonçalves olhou lá para dentro, através das vidraças da montra, mas resolveu não entrar.
Subiu a rua. Parou junto ao prédio mais alto de toda a cidade. Fechou os olhos. Apertou o nó da gravata e empurrou a enorme porta de vidro enquanto pensava se o elevador que o levava todos os dias ao seu escritório no nono andar, já estaria reparado.

Comentários

Susana disse…
Olá primo!
Tens muita criatividade, sem dúvida! Já te sabia criativo noutras áreas, mas na escrita é novidade para mim. Continua!
Queria enviar-te um e-mail para falar de outro assunto, podes enviar-me um sms com o endereço?!
Beijocas
Susana Marques

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