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A mostrar mensagens de Março, 2007

o silêncio

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O silêncio, aquele verdadeiro...

dizer

É necessário falar. Ontem mesmo, ia eu pela rua, encontrei alguns conhecidos, e senti-me mal por nada ter para lhes dizer.
Noutro dia... num supermercado, numa caixa... já não fui a tempo de me desviar para outra, sem que um ex-colega de trabalho me visse. Tive de cumprimentá-lo, e depois ficar constrangido enquanto ele não foi "atendido", pagou e foi embora com um finalmente efusivo "até à próxima!".
E tanta gente que me passa pela vida, e que nunca chego a conhecer...
E depois, com alívio, um amigo, dos que assim se podem chamar, que já não vejo há muito tempo, e que encontro ao entrar num café, e que até me convida para a mesa dele, onde está com outros amigos, que eu não conheço... e nada a dizer. Os nossos assuntos terminaram há muito tempo. Talvez porque nunca foram efectivos... talvez tenham servido para passar o tempo. Não me lembro de uma única conversa, talvez apenas algumas vivências conjuntas.
Porquê tanto vazio, quando por todo lado se ouvem gritos e se vê…

a cor

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A cor que apetece saborear!

de confiança

A todo o redor, não se vê ninguém. Nenhum sinal de humanidade. Não se avistam cidades, nem estradas, nem pontes, nem campos agrícolas.
Apenas estão presentes: o céu brilhante e os pouco vestidos montes rochosos, misturados com porções de terra acolhedora.
São serras brancas e cinzentas, com salpicos de verde-escuro, caídos do pincel molhado na lata da vegetação espinhosa e rasteira.
Respira-se disponibilidade: entre as plantas, as aves, os insectos, os roedores, e por vezes, também algum mamífero de maiores dimensões. E sempre a disponibilidade para viver e para cumprir as leis que seguram os pratos da balança.
É tudo normalidade, e de resto, mais nada. Porque já existe tudo o que é necessário. Por isso volto contente e com segurança, para o interior das galerias que tenho vindo a construir, desde que me conheço por toupeira.
Podem confiar em mim. Poderão pensar que não vejo sinal de humanidade por ser cega, mas não! Eu sei que ela não existe, porque não se faz sentir.”
O professor premiu o…

a dúvida

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A dúvida sepára-se de todos os que têm a certeza do que vêem... e quando é que se tem a certeza do que se vê? Então! Qual é a dúvida?!

correr pelas folhas e pelos tempos

O verão caía quando as folhas secas das árvores, parte incompletável da colecção de Outono, subiam a rua, sopradas pelo vento e iluminadas pelo pronunciado sol de mudança de estação, de fim ou de princípio, que brilhava irrepreensível no céu azul; eram os últimos e incomparáveis dias de claridade ainda morna, já que o ano revelar-se-ia vorazmente chuvoso e esquecido do verão de S. Martinho.
Atrás das folhas corria o Sr. Gonçalves, sem se lembrar do reumático e da pança proeminente que ameaçava desabar a qualquer momento. Subiu, e logo desceu, com a mudança do vento, que passara a soprar mais forte. Finalmente cansado, deitou-se sobre a relva, por entre os canteiros.
Depois reparou nos pombos que adejaram famintos para uma velhinha que todos os dias esmigalhava pão no passeio. Guarnecido de novas forças, o Sr. Gonçalves levantou-se e correu para as aves que fugiram, e logo regressaram, atraídas pela comida... fresca?
A velhota reclamava:
- Ah, meu maroto, que me estás a espantar os bichos.

o sonho

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O sonho... afinal sonhamos tão pouco...

por nada

Saiu para a rua enquanto todos dormiam.
A noite estava bonita, porém um pouco fria. O que não impedia, passo a passo, que fosse deixando a casa mais distante. Se olhasse para trás, já só iria vê-la lá ao fundo.
A brisa transportava o leve aroma salgado do mar; também o suave e calmo bater das ondas, lá em baixo transformadas em espuma, apenas visíveis por a noite estar tão clara.
Chegou-se à beira da falésia, olhou para baixo, abatido, e sentiu um arrepio. Deu dois passos atrás, enquanto tentava controlar uma tontura que lhe distorcia a visão, já mais habituada à noite.
Sem mais movimentos, pensou no que é, no que sempre quis ser. Pensou no porquê de estar ali; em muitas coisas que ouviu, falou, e que viveu.
Deu mais dois passos atrás.
Regressou, pelo mesmo caminho. Pouco depois, já podia ver a casa, lá ao fundo.
Deitou-se. Fechou os olhos, logo depois de ter visto a claridade da noite, para lá das cortinas.

o momento

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O momento... podemos fazer tantas coisas... e em tantos momentos... pode fazer a diferença.

desejo corado de doçura

Todos os anos, muito perto da chegada do Inverno a sua mente alterava-se. Ficava preenchida por um só pensamento. E por esses dias, sem pensar em mais nada, espreitava da janela do seu quarto, no primeiro andar, insistentemente, à procura do melhor momento para agir. Magicando a melhor maneira de abordar a situação.
Era um desejo enorme e infalível, aquele que a invadia e incendiava. Aquele que a fazia desabotoar-se. Que lhe ocupava a alma, e lhe fazia crescer água na boca, de doçura. Aquele amor corado, cheio de vitalidade.
Então numa linda manhã, sob uma sublime e misteriosa neblina, saiu de casa, excitada. Esgueirava-se pelas ruas, por entre os muros e as sebes, tentando passar despercebida, e num gesto repentino, saiu da estrada. Atravessou os campos, até que chegou ao deslumbrante laranjal.
Sentia-se atravessada por uma deliciosa emoção. Que lhe colmatava as carências.
Sem hesitar, abriu o casaco, e encheu-o de fogosos citrinos, e correu para casa.

a certeza

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A certeza de que se todos os seres inanimados ganhassem vida, tudo seria muito diferente.