sábado, 24 de fevereiro de 2007

águas serenas também se agitam, também serenam

Junto ao rio a vida passa devagar. Acompanha a descida das águas. Que sobem com as chuvas e com as marés, cobrindo a areia dourada ao sol de verão. Areia que acolhe as redes e os pequenos barcos em manutenção.
Só ali se pode beber a beleza do chapinhar tímido da rasa ondulação, e dos gritos serenos das aves, em concordância com o cantar suave dos pinheiros, que dançam uma leve valsa, embalados pela aragem delicada.
Nas águas prateadas as tainhas saltam alegremente, lançando para o céu azul, aqui e ali cuidadosamente ornamentado por grossas pinceladas de branco, feixes de luz intermitente. Numa comunicação de esperança, visível de todo o universo. Envolta numa generosa declaração de paz, que faz bater o mais pesado dos corações, sepultado e empedrado na imensidão de infortúnios e contrariedades.
Corações escorraçados de si mesmos. Desabrigados, deambulando vazios de ambições e emoções. Sem um sentido. Sem orientação. Inflamados apenas pelas razões aparentes. Inconsequentes. Impregnadas de vícios que desconhecem. Doentes por falta de sangue frequente. Rasgados por excessos, que não fazem falta. Que apenas poluem a abundância.

Mas voltemos ao rio, que continua a correr, genuíno.

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