segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

força


Quem é que não consegue?

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

pax-vóbis

Guardo um momento
Ouço o seu oportuno e…
Concreto, mesmo escondido
Adiciono partes indubitáveis
Pormenores tácteis
Sabores invencíveis

Sonho no pleno ar
Socializo independentemente de…
Tudo, é democratizar
Ou será a cracia do demo
Demonstro que não
São forças perenes
É a pax intensa
No rubor das ondas solenes

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

passatempo

Deixo o insecto voar sobre a cama
Apago a luz reluzente para ver se ele me deixa
Morro perto da fome que cruza a lama
Faço cozido da vontade antes que ela morra
Chamo os cabelos vivos colhidos na manhã
Vejo olhos bonitos tremer à luz da lenta chama
Olho o peso coberto pelo clarão azul
Sinto-me bem aguerrido quando a lupa finge que olha
Passo assim o tempo
Sem nada para atempar
Rasgo assim o vento
Sem ponteiro a derrapar
Assim se enganam os mundos
Loucos, os normais, que nada sabem
Que nada sabem e que tudo querem
Eu que nada sei
Eu que sonho e sempre sonhei
E esqueço

Peço a laje que me queima
Esmaga os dedos sem motivo
Não morro, não respiro, mas estou vivo
Parece-me o fundo
Só conheço este mundo
Procuro outros que me acordem
O auxílio urge e surge
Também alguém que ainda me lê
Enfrento o combate sem saber porquê
Afinal porque o tempo passa
Também consegue amadurecer
A expectativa seguiu o penoso alvitre
Não há razão para esquecer
Louco, eu, que descubro o que sempre sei

O que sempre soube
A canção de alguém que não ouve
Entende, não desespera
Aguarda e persevera
Eu mudo com o mundo
Mesmo que ele não mude, ou seja mudo
A certeza vive cá no fundo
Em cada segundo
Ao lado do tempo que sempre vive
Num toque de veludo
Muito mais do que sobrevive

Eu paro e reparo que o tempo não pára

o tempo não pára

O que sempre soube
A canção de alguém que não ouve
Entende, não desespera
Aguarda e persevera

Eu mudo com o mundo
Mesmo que ele não mude, ou seja mudo
A certeza vive cá no fundo
Em cada segundo
Ao lado do tempo que sempre vive
Num toque de veludo
Muito mais do que sobrevive

Eu paro e reparo que o tempo não pára

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

o tempo ainda passa

Que nada sabem e que tudo querem

Eu que nada sei
Eu que sonho e sempre sonhei
E esqueço

Peço a laje que me queima
Esmaga os dedos sem motivo
Não morro, não respiro, mas estou vivo

Parece-me o fundo
Só conheço este mundo
Procuro outros que me acordem

O auxílio urge e surge
Também alguém que ainda me lê
Enfrento o combate sem saber porquê

Afinal porque o tempo passa
Também consegue amadurecer
A expectativa seguiu o penoso alvitre
Não há razão para esquecer
Louco, eu, que descubro o que sempre sei

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

passa o tempo

Deixo o insecto voar sobre a cama
Apago a luz reluzente para ver se ele me deixa

Morro perto da fome que cruza a lama
Faço cozido da vontade antes que ela morra

Chamo os cabelos vivos colhidos na manhã
Vejo olhos bonitos tremer à luz da lenta chama

Olho o peso coberto pelo clarão azul
Sinto-me bem aguerrido quando a lupa finge que olha

Passo assim o tempo
Sem nada para atempar
Rasgo assim o vento
Sem ponteiro a derrapar
Assim se enganam os mundos
Loucos, os normais, que nada sabem

sábado, 27 de outubro de 2007

o que temos

Tudo passa
Tudo fica
Tudo se sente
E se sente esquecer
Na paz do espírito
Igual a si
Porque lhe pertence
O sabor
O calor
Dos dias
Que passam
Que ficam
Que tudo sentem
E que sentem esquecer
E mudar a paz
Para algo diferente
A paz demente
Que grita
O sabor (pouco)
O calor
Dos dias (estes) - que nos mostram um Universo à luz de quem não entende nada dele.
Nesta nossa forma sofisticada de agir, pensar e interpretar; só nossa.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

árvore



Há muito mais, para lá...

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

esquece

O sol desperta
Anoitece o frio, numa arável descoberta

Ao retorno do sentido
Tenta saber o que diz para ser desmentido

Com uma só idade
Que, por fim, ainda corre e confirma a verdade

Entristece o sabor
Alimento tão parco que esquece de conhecer o amor

Anoitece a estrada
Entristece a expressão calma, à procura de outra entrada

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

quase tudo

Um tudo nada.
Em tão pouco.
Um gostar de ver.
É tão simples.
Um querer saber.
Ser sincero
Saber olhar.
Gostar de ouvir.
E de querer.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

fluidez


Não esqueças a paz e o coração.

Não esqueças o caminho

Ou melhor...

Vive a paz e acredita no coração.

Cria e erige o caminho.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

se nunca deixar para trás

Esqueço a estrada que para trás ficou
A demagogia interna nem dá para tanto
Mesmo que por pouco tempo
Iludo o meu espaço privado

O futuro pode mudar o que sou
A viagem caminha, por enquanto
Eu quero conhecer o que limpo
Para saber o que terá mudado

Isto em todos os lugares
Que afirmam espaços incertos
Numa emergente descoberta
Numa saudade sem idade

Nas misturas de olhares
Os sonhos por si vivem libertos
É a palavra secreta
É a fome que não come

Os sons não dormem
Por mais que acordem
A esperança sobrevive ao método

Sabe que as palavras tremem
Imagina que os sorrisos persistem
A certeza do sim renasce em cada êxodo

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

inóspito


quinta-feira, 30 de agosto de 2007

inconfidente

Demoro-me a pensar. Olho para mim e escuto os sons da estrada, lá mais ao fundo.
É-me difícil conceber um dia assim. As palavras segredam os seus significados inaudíveis. Escuto, ou apenas ouço.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

intenso


A reunião antes da partida...

*obrigado à autora da foto!

domingo, 26 de agosto de 2007

insónia

Desça à terra que me ata. Nesta nave de unguento ingénuo. Limpa choques. Deixe-me dormir, não me mostre. Os seus cabelos repousam. Sentem-se belos. Não os molhe. Então deixe-me ir. Já é tarde para vir. Desta vez é como vê. Não enumere o que não contempla. Quero antever. Franqueie para mim. Silêncio. Não me acorde. Desta vez não me aferra. Então é... uma boa noite. Amanhã o jogo recomeça.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

insatisfeito

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

inconstante

Porque tudo faz chama. É fácil sentir peso inerte de qualquer substância. A viagem é seguida de sonhos. Isto tudo, não respira solidão. Esferas de fome flutuam no espaço. A surdez estagna o lodo. A prisão desconhece a inconstante semente da fala vivida.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

interno

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

incenso

Não tenho tudo. Não sou o que quero. Não sou coerente. Não sou diferente.

Que falta faz o não? Porque se faz tanta pergunta?
Pode ser a revolta do não dizer não; e saber o que fica.
Sou eu, o que sou... sempre. Mesmo que questione o que é ser alguém.
É mais simples apenas ser, sem questionar; porque uma pergunta não é uma resposta. Porque é comum haver quem aponte os erros. E só. E nós sabemos quais são os erros.
Então, sou... e se sei ser? [...] sei.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

instante


segunda-feira, 13 de agosto de 2007

indivisível

Às vezes sinto o sol e o ser. O sol que aquece. E o ser que sente.
Das outras vezes sinto ser o sol; ou o ser que quer sol; ainda o sol que quer ser.
É assim ser.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

inconsciente


Pode ser inconsciente, mas o espaço vai sendo ocupado...

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

instinto

Instinto que te empurra... E se eu controlasse?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

infinito

É de tudo, o que é quase.
E em pouco se torna. Se entorna a mão, não sabe da paz que se manifesta.
O princípio retorna e esconde o que mais se vê. Vê-se que não sabe mudar o rumo da festa.
Ao que demais vem, espera o rumo de ter o pensamento seguinte. Em seguida pensa que sabe onde mais querer a sorte que se diz indigesta.

domingo, 5 de agosto de 2007

incrível

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

incremento

A vitória pode não trazer ganhos. Ter razão não garante sabedoria. A culpa não vive e pode tornar-se saudade.
A necessidade de fazer não conhece qualidade. Não deviam haver tarefas diárias. Elas esgotam-se na sua própria recorrência, e não permitem inovação.
Não se pode sonhar todos os dias?
As palavras escondem sentimentos. Não é fácil dizer o que se sente, realmente o que se sente - Eça de Queiroz* dizia que os escritores portugueses deixam de dizer o que sentem, e esquecem a sua opinião, em detrimento do que fica, e parece, bem. E o que fazem os outros portugueses?
Este texto poderia ser mais longo, se eu quisesse continuar a escrever, e se depois, não afastasse a vontade de alguns que o querem ler.


* espero não ferir qualquer sensibilidade e merecer poder usar o nome e a sabedoria desta grande personalidade portuguesa.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

templo?

Onde está a imagem?


segunda-feira, 23 de julho de 2007

se disse

Se há alguém que sabe tudo o que disse...
Há alguém que sabe tudo o que eu disse... não há.
Se faço tudo o que disse...
Se concordo com tudo o que disse...
Se sou o mesmo que um dia disse...
E se decidisse saber tudo o que disse.
E se um dia mudasse tudo o que disse.
Eu sei que muito do que disse... não digo.
Eu sei que disse o que não tinha para dizer.
Eu sei que agora digo que todos temos algo para dizer... e disse.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

amanhã

Estou aqui. A adiafa permite-me irromper em cada dia. Por tudo o que mereço e sei viver. Distingo as cores subtis e vivas de segredos a crescer. Segredos que todos querem partilhar. E ao fim de tudo é o sol. Que porfia. Mas por si, e por todos. E por ele, em tudo o que quer filtrar. Estou aqui.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

acender

Só depois de saber que tudo o que tinha era ouro.
Apenas quando soube que alguém ria se viu sorrir. Quando viu o sol percebeu quem era a sua sombra.

O castelo desmorona. A medievalidade persiste.

As marés crescem. As impurezas não são lavadas.


O que é uma imagem negra?

segunda-feira, 16 de julho de 2007

simples







Até quando será preciso mais?

quinta-feira, 12 de julho de 2007

seguro

O que conhecemos não pode ser o fim para o qual serve o mundo. Então, é porque há coisas que ainda não foram ditas, e outras que já não deviam ser ouvidas.

Não acredito que os jornais digam tudo o que sabem, e que o amor saiba tudo o que sente.

terça-feira, 3 de julho de 2007

sonhos



Uma resposta só tem sentido, quando a pergunta é sentida

segunda-feira, 2 de julho de 2007

caminhar ao choro da meia-noite

Caminhar pode não ser mais do que colocar um pé à frente do outro e chegar mais à frente. A meia-noite pode não trazer mais do que a sucessão dos dias e dar a hipótese de começar tudo de novo. Chorar pode não permitir mais do que produzir sons, verter lágrimas e deixar como escolha voltar a sorrir com mais convicção.
A lua sabe voltar. E trás e leva as marés. E junta-se sempre aos que caminharam.
O vento sabe levar as sementes, que reiniciam a esperança de permanência, que aconchega os que se permitem mudar de rumo, e começar, e recomeçar a explorar novos caminhos.
A chuva sabe lavar os rostos dos que choram e com eles pode sorrir.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

corte

Extremos da vida. Medida. Em mim confiada. Permitida.
Por sinais obtusos. Confusos. Sem sorrisos. Difusos.
É um pouco mais que nada. Não que nada seja. Existe. Até ao fim.
Sem dormir. Um pouco mais que sentir. Sem querer fugir.
Como subir uma escada. E esquecer a inveja. Que se esconde em mim.
Como rimas fáceis. Dicionários de papas de aveia. Ao descer da maré-cheia.
Não quero dormir. Não sei sentir. Não tenho para onde fugir.
Não quero repetir.
São gestos dóceis. Que derretem geleia. Ao subir à lua... crescente.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

antes do fim









Antes do fim há sempre algo mais a fazer.

domingo, 24 de junho de 2007

ser

Saber o ser que sou.
Saber ser como sou.
A vida ao olhar do que vivo.
Ver no mundo o que vejo.
Voar como o pássaro que voa.
Saber o que sou e sê-lo.
Cantar um sonho ao canto, e canto.
Mudar, como o vento mudou.
Saber ser o que sou.
E vou...
...embora fique.
E sou o que sou.

terça-feira, 19 de junho de 2007

diamante

No teu olhar vazio
Quase transparente
Ausentado de substância
Num nevoeiro indiferente
És um furor arrependido

Um movimento esguio
Sobre ti incêndiado
Procura apenas alternância
No teu querer evaporado
És um sabor ofendido

Não te falo de um desvio
Antes fosses inocente
Desconheces a importância
Do saber irreverente
És um calor esquecido

sexta-feira, 15 de junho de 2007

o mistério



O mistério do que se vê e não se sente...

quinta-feira, 14 de junho de 2007

visual index

Sorri e deixa de sorrir. A frustração transfigurou-lhe o sonho; que surgiu por nada existir, e desapareceu por nada ter. As palavras são pouco claras, para si. Restringem os pensamentos. Então deixa-se sorrir e parar de sorrir. Levanta os braços ao céu; move os dedos dos pés remexendo a areia. Sorri e resolve continuar a sorrir.
Uma onda chega mais perto.
Olha para as suas mãos, lá em cima, recortadas de azul. As mesmas que sempre camuflou. Não deixa de sorrir.

terça-feira, 12 de junho de 2007

caranguejo

Caranguejo é uma palavra engraçada. Só pela sua sonoridade.
Esqueço por um momento o animal incrível que lhe está associado, e imagino o que seria, se não fosse o que conheço.
Um pouco de imaginação; comcentração: e para mim um caranguejo é um sistema de engrenagens de extrema complexidade.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

ficou

A cidade que para trás ficou
Não é mais do que o caminho que voltou
Livre e desprendido de submissões
É o espaço aberto que se abre e absorve emoções
Incita a avançar,
Sem medo de recear
Não é esgrima nem sabor,
É mais útil do que qualquer dor

domingo, 3 de junho de 2007

zzz

Novos recursos separam-nos do que sempre fomos. É a inquietação moderada pela edição de imagens profusas que esmagam cada individualidade.
Parece que não tenho assunto.
Parece que nada quero dizer.
Tento experimentar como se diz algo novo. De modo a que mais alguém entenda. Sem saber com que tipo de frases se pode sensibilizar a indiferença ou indicar uma alternativa urgente.
Já parecem gastas, todas as fórmulas conhecidas.
O objectivo é simples: é trazer-nos para mais perto do ser. E sobram pequenos clarões do que pode fazer; de como se pode usufruir de todo o potencial.
Que não falte a imaginação, e o tabu apagar-se-á para sempre.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

cála-te

Pode parecer ironia, mas por mim diria.
Se falasse sempre que tenho alguma coisa para dizer, quase nunca o faria.

terça-feira, 29 de maio de 2007

a chávena

Sentou-se e suspirou. Olhou a chávena e sorriu. Encheu-a de café e olhou para a janela. Bebeu um pouco e levantou-se. Caminhou pela sala e saiu para a açoteia. Sentiu o calor do sol e pousou a chávena no chão. Sentou-se na cadeira de bambu e fechou os olhos. Sentiu a calma e o conforto. Abriu os olhos e bebeu mais um pouco de café. Olhou o céu e sentiu um arrepio. Pousou a chávena e viu-se reflectida na vidraça. Observou-se por um instante e sentiu-se integra. Compôs os cabelos e pegou na chávena. Levantou-se e voltou a entrar em casa. Sentou-se no sofá e largou a chávena em cima da mesinha. Sorriu e adormeceu.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

sapiens sapiens

Preciso de ajuda.
Nem eu sabia que sabia e podia dizer isto sem que o mundo se desenrolasse. Ontem disse-o. Nada de mal se libertou. Ninguém me fez mal. Nem houve agoiro que a mim se tivesse dirigido. E depois ainda consegui ir à praia: pelo caminho, as pessoas continuavam a colocar um pé à frente do outro para conseguirem andar, e a mostrar os dentes quando sorriem.
Ao lá chegar, as ondas continuavam a vir e a regressar ao seio húmido e salgado que as acolhe. Sentei-me na areia, e o seu toque era diferente. O sol era diferente; as nuvens esparsas; a brisa indelével.
E a suavidade que me extasia permanece saborosa.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

reticência

- Eh, há quanto tempo não te via... Tudo bem contigo?
- Tudo, e contigo, tens passado bem?
- Tenho, olha... cá se vai vivendo...
- Então, o que tens feito?
- Olha, pá, tive um tempo desempregado, não foi fácil, mas depois lá arranjei um trabalho num armazém de bebidas, e por lá estou...
- Ah, então e estás a gostar? Está a correr bem?
- Está, então...
- Mas é uma coisa que tu gostas, ou...
- Pronto, pelo menos dá para ir ganhando algum ao fim do mês...
- Pois, e a família, como é que vai tudo...
- Tudo bem, tudo bem... Os putos vão bem na escola e pronto, vai tudo bem...
- Mas, não sei, pareces-me desanimado... Não pode ser assim, temos de viver a vida satisfeitos e contentes, senão não vale a pena!
- Desanimado? Não! E tu, o que tens feito?
- Eh pá, olha... pouco mais de nada... o mesmo de sempre. A fábrica onde trabalhava fechou, e desde aí ainda não arranjei mais nada. Isto está complicado!
- É, está muito complicado... Bom, é assim, então pronto, fica bem...
- Tu também, havemos de combinar qualquer coisa um dia destes...
- Boa, temos de fazer isso, os putos iam gostar.
- Então depois a gente fála-se.
- Ok, fica assim...

E gritar, não apetece? E sonhar... e tentar, não dá vontade? Que medo é este? Será que não há batatas suficientes? Será que o frio é mortal? O que será que os outros podem dizer... e fazer? Sou eu ou são os outros?
Dá vontade de ir ao teatro... conhecer a serra que se vê lá ao fundo... será que as batatas não chegam? Será que não se podem usar todos os objectos só mais uma vez?
Por que falta a vontade? Porque, falta mesmo a vontade! Mas será só vontade?
Será que eu preciso mesmo de ouvir as notícias, de saber que todas aquelas coisas acontecem todos os dias? Será que eu preciso de internet para me distrair e pesquisar sobre o mundo? Será que este blog alguma vez me disse alguma coisa que eu precisasse ouvir, ou que não soubesse já?
Então o que me falta saber?
Porquê é que eu não me entrego a quase nada do que faço? Porquê é que eu não quero fazer quase nada do que faço? Porquê é que é sempre tudo tão difícil, e surgem sempre tantos obstáculos?

Estas perguntas toda a gente as conhece. E as respostas? Onde ficaram elas? Como, e porquê é que este tipo de sensações e questões chegaram tão longe. Mais uma pergunta: porque insisto em mantê-las? Até quando?

Eu não preciso que me dêem as respostas; eu conheço-as profundamente...

E é sempre assim, tudo tão vazio... como quase todos os apelos... como este post, que se calhar está mal escrito e sem qualidade, e já vai muito longo e assim ninguém vai querer lê-lo... E devia ser mais profundo, como estes coisas têm de ser... Deveria ser como uma dádiva feita à cultura humana representada pela essência original da obra de um pensador ou de um artista (esta frase não é minha).
Não há nada que este post vá conseguir mudar.

Ou será que vai? Mas será suficiente? Será que serviu para alguém lê-lo? Será que serviu para mim escrevê-lo?...

Não queria acabar com uma pergunta... Não sei o que dizer... Queria ter uma frase bombástica e gloriosa para o final; que rematasse tudo isto...

Bom, fica assim... a gente vai-se falando,... e...

Vou estar mais atento.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

imperdidos e desachados

Perdi o que tinha para dizer. Procurei por cima e por baixo e por dentro e por fora de todas as coisas... As coisas que tudo são, as coisas que não são tudo.
Por isso expresso-me onde vês, e como sentes. Sem outros sentidos incoerentes, no ecrã que podes ver e nunca palpar.
Então resta-me ir devagar, e tentar chegar sem traços de ideias furtivas, ou furtadas... o que todas são... por mais originais que se desmintam.
Não faz sentido ir a divagar.
Então torno-me mais subjectivo.
Faço o que não sou e vendo o que não vejo.
Tremo pela paz que não selecciono. E colecciono vocações interpostas em sinais vanguardistas... aparentemente, aparentemente perfeccionistas.
Acho-me disfrutável.

sábado, 12 de maio de 2007

o que se sabe, sem saber

Só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início.
Para que todos saibam, eu explico: não há questões, mas dúvidas. Dúvidas que se sentem. Palavras que ficam. Foge-se delas. Ri-se. Porque não se chora?
Depois, adiante, volta-se ao mesmo, e fica-se. E mexe-se em tudo, ou quase. Pelo menos no que se pode. No que está mais perto.
Só com as palavras posso explicar o que sinto. Não! Estou enganado. Também o posso fazer com gestos. E com sinais. Ah, e posso pegar num lápis... Mas não. Não vale a pena. Quero apenas segredar, e é tudo... e espero...
Mas, e se voltar ao início? E disser que só há três coisas, para além das que já falamos, que, apesar de tudo, não parecem ser mais do que isso. Mas mesmo assim, desta vez, fico à espera. Aguardo pelo que vai e vem. E fica. Depressa foges, sem voltar. Sem voltar ao início...
Como é fácil falar do que não se sabe! E eu sei do que estou a falar...

sexta-feira, 11 de maio de 2007

a caixa

A caixa frenética.
A caixa caquéctica.
A caixa emblemática, sorumbática e indisposta.
Para nós, por todos nós interposta e imposta.
E quem não gosta, e prefere a liberdade.
A que não tem idade nem cidade.
Vive vazio, porém ao devir da igualdade da visão estética.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

olhar que não se vê

A espada que tenho nas mãos, não serve para matar. Cai-me aos pés, ainda reluzente. Ainda pegajosa. Ainda pronta a prosseguir. Mas parada. Pouco a pouco, empoeirada. Porque eu não lhe pego. Não me mexo. Não consigo.
Tento encontrar um olhar, algo que me observe. Aquele olhar, que me rodeou. Não o encontro. Do lado de lá chega-me apenas o vazio. O deserto ventoso, de areia, ou de gelo, ou de pedra. Vazio.
A espada sempre brilhante, quase coberta, a meus pés escondidos. Camuflados. Quietos há muito tempo. Para sempre. Estáticos. Também não se mexem. Com o tempo, encolhem. Eu sinto-os apertar. Já não os vejo. Nunca mais os vou ver. Nunca mais vou-me ver. Não consigo. Não quero conseguir. Tenho vontade de me abafar.
Sei que nunca mais vou encontrar aquele olhar que quis ver apagado. E que se extinguiu. Porquê? Porque estava robusto. Porque estava faminto. Porque estava louco. Tive medo. Eu! Eu tive medo. O olhar tinha coragem. Eu tive medo. Eu tenho medo.
Eu tenho medo de espadas. De todas as espadas.
A espada enferrujada. Os pés dissecados. As mãos. As mãos nunca mais existiram. Não quero falar das mãos. A culpa é delas. Não sei das mãos. Só sei que estão aqui. Não sei onde estão. As minhas mãos. Os olhos, os meus olhos. Que têm olhar. Ou será que não têm? Pergunto! Perguntem-me. Ou será que estão enferrujados?
Não adianta. A espada volta a reluzir. Os pés voltam a corar, as mãos, os braços, os olhos desenferrujam. A espada, limpo-a.
O olhar não volta. O meu olhar. Nunca o vi. Nunca mais alguém o viu.
Isto não é coragem.

terça-feira, 8 de maio de 2007

quase nada


É quase nada; e é quase tudo. Não se explica. É como um dia de sol.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

livre para mim

Apetece-me a brancura e a frescura do papel. Sem linhas. Para que possa divagar. Com leveza. No sentido que quiser. Orientando tudo pelas minhas opções. Coerentes com aquilo em que acredito. Regidas pela sensibilidade que me chega e que procuro sempre reconhecer, até nas mais pequenas ondulações, que me são transmitidas pela vida. Que percebo ao percorrer os vales profundos; as planícies férteis; ao escalar as montanhas que apenas têm para oferecer aquele ar rarefeito, de difícil compreensão, mesmo apesar de estar mais próximo do céu. Mas que me obriga a respirar com mais calma. Como única forma de aproveitar cada molécula de oxigénio. Que causa tonturas, que me faz deitar, e voltar a olhar o céu, que, entretanto, quase esqueci.

sábado, 28 de abril de 2007

em vias de extinção









Será que este é um objecto em vias de extinção? Será que depois do petróleo acabar ainda se vai utilizar este tipo de objecto para armazenar, por exemplo, biodiesel? Será que já ouvi alguém dizer "que bom o petróleo vai acabar", se a utilização deste o converte num poluidor de fortíssimo impacto? Será que o petóleo não fazia falta lá no sítio onde ele estava?

domingo, 22 de abril de 2007

existência secular

Dia após dia, tendo a lua, o sol, as nuvens, as estrelas, o vento, e toda essa lista interminável de essências por companhia, e mesmo assim, tão só. Tão esquecida do alto da sua existência secular, tantas vezes realçada pela degradação dos seus pedaços, que se desmoronam, involuntários a tudo o que vêem; e que sentem. Talvez porque não compreendem. Porque se limitam a resistir até ao fim das suas forças, cada vez mais próximas do limite, que acabam por deixar as fraquezas, cada vez mais evidentes.
E ninguém perdoa ninguém. A essência não reconhece a periferia, que não acredita estar ligada a um eixo. E todos se criticam, sem que haja espaço para a gratidão, pelo esforço que, afinal, todos produzem, mas de forma isolada.
E assim, os telhados com as vigas descobertas deixam o soalho apodrecer. Provocam uma corrente de ar que as janelas não seguram, que as portas não detêm.
Todos estimulam um desarranjo, que conciliado com o pó, não deixa sossegar os móveis; nem as louças, que se estilhaçam; nem os tecidos, que se rasgam.
Só fica o desperdício. O passado, que já ninguém se lembra de compreender, que já quase se esvaiu no nada, por estar tão rodeado de coisa nenhuma.
Só ficou um detrito da mansão que já mal se vê lá em baixo, ao fundo da rua, quase coberta pela vegetação, que só por si, é muito mais vigorosa e resplandecente. Muito mais admirável. Com muito mais para dizer. Porque dentro dela corre seiva. A diferença é que ela o sabe.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

a comunicação



A comunicação de palavras.

terça-feira, 17 de abril de 2007

isto é intolerância

Ele não tolerava números ímpares. Em qualquer ocasião. Não conseguia estar numa fila e perceber que era o número onze, ou o sete. Por isso, o que fazia, era esperar que chegasse o momento em que a última pessoa fosse atendida, para se pôr atrás dela: assim eram dois.
Mas logo tinha de se ir embora. Quando chegasse a sua vez, seria o número um.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

a visão




A visão que persiste.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

inactividade activa

Há horas sentado no seu pequeno globo, pelo menos se comparado com o tamanho da sua vontade, Damásio observa tudo o que se passa lá em baixo, o que acaba por proporcionar uma imagem surreal para quem está de fora, e vê alguém com as pernas muito pequenas, com os pés à proporção, e depois com um tronco muito comprido e uns longos braços, levantados para o céu. A cabeça, tão depressa do tamanho de uma noz, como, de repente, se torna na maior porção do seu corpo.
Depois tudo termina e o velho Damásio vagueia pelas estradas ladeadas de matos, florestas, hortas e pomares, que sempre desembocam nas vilas e cidades.
Em vida supostamente activa, pressupondo que depois surge o momento reservado à quietação, foi sapateiro. Talvez por isso tenha aprendido a usar as botas que trás calçadas com tanta eficácia. E assim percorre, com à vontade, sem receio de ficar apeado, longas distancias, todos os dias.
Quando lhe perguntam se nunca se cansa, responde que “Não”, que “Estou agora calmamente a descansar de todo o período de actividade, passado anos a fio no interior bafiento de quatro paredes escuras.”
E foram muitos, os sapatos e as botas, e outros pares de calçados que concertou. Mas só agora se deu conta que trocara as voltas a si mesmo: só agora consegue perceber que primeiro se devia ter sentado no globo e percorrido todos os matos, para que depois pudesse participar numa vida activa mais útil.
Talvez por isso ainda chore, o velho Damásio, mas não de tristeza.

terça-feira, 10 de abril de 2007

a imensidão do ser

Pela imensidão de ser alguém que é só aquilo que é.
E não mais aquilo que imagina; que é possível ser num só ser.
Sem que depois de tudo isto, se torne mais possível ser alguém que imagina, que pela imensidão se torne possível... não ser!

domingo, 8 de abril de 2007

a viagem

A viagem (e no tempo) a Eburobrittium - cidade Romana junto a Óbidos.

sábado, 7 de abril de 2007

deitada sobre si mesma

Deitada sobre si mesma, no seu corpo de riscas brancas, como zebra, inquieta-se com as acções disformes que testemunha com vil desagrado.
A chuva escorre junto aos passeios de calcário, de um lado, e de cimento do outro; desce a ladeira, como descem os automóveis com mil pressas, e poucas contemplações.
Tenta comunicar com a sua companheira, que se alonga um pouco mais acima, tão surda como os demais, apoiada por sinais de luzes verdes e vermelhas; e verdes, amarelas e vermelhas, onde ninguém pára se não for obrigado, e é esse o mistério.
Onde os sinais não dizem para parar, por vezes os automóveis param, num acto natural de respeito e civismo; onde os sinais dizem que se deve parar, ninguém o faz a menos que seja obrigado.
Deitada sobre si mesma, sente a chuva e o sol, e todos os elementos.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

o lugar



O lugar comum e eternamente belo.

terça-feira, 3 de abril de 2007

pontos de luz

As rodas do carro coçavam as bermas mal acabadas, de pedras soltas, da sinuosa estrada que sobe e desce, estreita, quase camuflada pelo arvoredo, através dos montes que separam a pequena e pobre aldeia da cidade.
O velho Mendes, homem de tradições e costumes enraizados, sempre se entregou a velhos hábitos, que não abandona, por nada deste mundo. Deita-se com o sol e levanta-se com os primeiros raios de luz de cada dia, sem excepção. Na sua casa, não há luz eléctrica, apenas anacrónicos candeeiros a petróleo e velas de parafina. A água, vai-se buscar ao poço. Maria, sua mulher, é quem mais sofre com tudo isto; porque não aceita, porque não é uma sua escolha consciente. Sujeita-se a todos estes trabalhos, numa época em que já toda a gente tem frigorífico e máquina de lavar, mesmo ali, na aldeia.
E o acabado carro do filho mais velho de Mendes, continuava a subir o monte mais alto. Que é também o último. Depois, é só descerem para o vale, para o tímido e suave lugarejo.
- Ainda falta muito?
O velhote já estava farto de tantos balanços. Àquela hora da noite, já deveria estar a dormir, e há muito... E depois, sem dúvida que, o dia não lhe correra bem. Pela primeira vez em toda a sua vida, tinha ido a um hospital, depois de uma súbita síncope, ainda mal esclarecida. Lá disseram-lhe que não era nada. Estava tudo bem; era “um homem rijo”. Ele sabia que estava bem, nem precisava ter ouvido isso da boca do doutor. Se não tivesse ficado inconsciente, nunca teria permitido que o tirassem da sua terra, ainda por cima, sem necessidade.
Por isso balanceava-se, casmurro, junto com o automóvel, numa estranha harmonia.
- A seguir àquela curva, começamos a descer.
Mendes abriu mais os olhos, para ver bem se era verdade o que o filho lhe dissera. E ainda bem que o fez. Teve, talvez, a maior surpresa da sua vida. Depois da curva, pôde contemplar um mundo, até aí desconhecido.
O vale da aldeia é amplo, com vastos terrenos de cultivo, o rio e a povoação, lá ao fundo. A descida era mais iluminada, menos rodeada por vegetação alta, cerrada. E Mendes respirou fundo; e arregalou o olhar, de forma diferente. Até o filho reparou que se estava a passar algo com o pai, mas que não compreendeu.
Pela primeira vez na vida, o velho se apercebeu de todo o esplendor de um céu estrelado. Toda aquela superfície polvilhada de pontos de luz, que há anos não via e que mal conhecia. Do fundo do seu vale, e do seu sono protegido da luz pelas portadas que ainda impediam o sol, tinha uma perspectiva diferente, pouco realista, do céu que todas as noites se abre sobre a sua cabeça.
E mais; dali também pôde ver, já sem ligar ao constante bater das rodas do carro nos buracos da estrada, um outro tipo de estrelas, que enfeitam as montanhas, ao longe: os pontos de luz revelados pelos postes de iluminação das localidades mais distantes. Até a sua própria aldeia estava diferente. Tão iluminada, no meio da escuridão nocturna.
A partir daquela noite, apesar de se continuar a deitar cedo, muitas vezes começou a esperar pelo escurecer, só para poder admirar as estrelas por uns instantes. Ao seu lado estava sempre Maria, feliz, mesmo sem perceber o que de diferente se passava com a cabeça do marido.
Depois iam-se deitar, e Mendes, depois de ver as luzes do céu, sempre com a certeza de que um dia iria voltar a ver toda a beleza da luz que os Homens podem proporcionar.

quarta-feira, 28 de março de 2007

o silêncio

O silêncio, aquele verdadeiro...

domingo, 25 de março de 2007

dizer

É necessário falar. Ontem mesmo, ia eu pela rua, encontrei alguns conhecidos, e senti-me mal por nada ter para lhes dizer.
Noutro dia... num supermercado, numa caixa... já não fui a tempo de me desviar para outra, sem que um ex-colega de trabalho me visse. Tive de cumprimentá-lo, e depois ficar constrangido enquanto ele não foi "atendido", pagou e foi embora com um finalmente efusivo "até à próxima!".
E tanta gente que me passa pela vida, e que nunca chego a conhecer...
E depois, com alívio, um amigo, dos que assim se podem chamar, que já não vejo há muito tempo, e que encontro ao entrar num café, e que até me convida para a mesa dele, onde está com outros amigos, que eu não conheço... e nada a dizer. Os nossos assuntos terminaram há muito tempo. Talvez porque nunca foram efectivos... talvez tenham servido para passar o tempo. Não me lembro de uma única conversa, talvez apenas algumas vivências conjuntas.
Porquê tanto vazio, quando por todo lado se ouvem gritos e se vêem mensagens? São as letras, as palavras que atrapalham?
Nada ultrapassa os olhares e os gestos que tudo dizem. E muito mais se pode dizer, sem mover um dedo, sem dobrar a língua, sem abrir os olhos...

terça-feira, 20 de março de 2007

a cor



A cor que apetece saborear!

sexta-feira, 16 de março de 2007

de confiança

A todo o redor, não se vê ninguém. Nenhum sinal de humanidade. Não se avistam cidades, nem estradas, nem pontes, nem campos agrícolas.
Apenas estão presentes: o céu brilhante e os pouco vestidos montes rochosos, misturados com porções de terra acolhedora.
São serras brancas e cinzentas, com salpicos de verde-escuro, caídos do pincel molhado na lata da vegetação espinhosa e rasteira.
Respira-se disponibilidade: entre as plantas, as aves, os insectos, os roedores, e por vezes, também algum mamífero de maiores dimensões. E sempre a disponibilidade para viver e para cumprir as leis que seguram os pratos da balança.
É tudo normalidade, e de resto, mais nada. Porque já existe tudo o que é necessário. Por isso volto contente e com segurança, para o interior das galerias que tenho vindo a construir, desde que me conheço por toupeira.
Podem confiar em mim. Poderão pensar que não vejo sinal de humanidade por ser cega, mas não! Eu sei que ela não existe, porque não se faz sentir.”
O professor premiu o botão de stop, que deteve a fita da cassete, e virou-se para a turma, que continuava tão imóvel e interrogativa, como quando ouvia a voz dengosa que pretendia ser de uma toupeira. Depois, adivinhando os pensamentos de todos, declarou:
- Talvez a toupeira estivesse cercada por humanos. Talvez vivesse no centro de uma grande capital. Talvez os Homens estejam tão fora da sua essência, que os bichos pensam que estão sozinhos, e assumam todas as carências como provas a cumprir. Talvez os animais e as plantas, no seu interior, tenham transformado todas as agressões humanas em normalidade. Se foi isso, talvez eles venham a perceber o erro que cometeram. Se foi isso, talvez nós ainda possamos vasculhar a abafada ingenuidade que nos percorre.

quarta-feira, 14 de março de 2007

a dúvida


A dúvida sepára-se de todos os que têm a certeza do que vêem... e quando é que se tem a certeza do que se vê? Então! Qual é a dúvida?!

sábado, 10 de março de 2007

correr pelas folhas e pelos tempos

O verão caía quando as folhas secas das árvores, parte incompletável da colecção de Outono, subiam a rua, sopradas pelo vento e iluminadas pelo pronunciado sol de mudança de estação, de fim ou de princípio, que brilhava irrepreensível no céu azul; eram os últimos e incomparáveis dias de claridade ainda morna, já que o ano revelar-se-ia vorazmente chuvoso e esquecido do verão de S. Martinho.
Atrás das folhas corria o Sr. Gonçalves, sem se lembrar do reumático e da pança proeminente que ameaçava desabar a qualquer momento. Subiu, e logo desceu, com a mudança do vento, que passara a soprar mais forte. Finalmente cansado, deitou-se sobre a relva, por entre os canteiros.
Depois reparou nos pombos que adejaram famintos para uma velhinha que todos os dias esmigalhava pão no passeio. Guarnecido de novas forças, o Sr. Gonçalves levantou-se e correu para as aves que fugiram, e logo regressaram, atraídas pela comida... fresca?
A velhota reclamava:
- Ah, meu maroto, que me estás a espantar os bichos.
Ele riu e afastou-se um pouco. Atravessou a rua para o outro lado, onde ficava a loja do Sr. Francisco, que brincava com pequenos carrinhos de ferro, que voavam inexplicavelmente. O Sr. Gonçalves olhou lá para dentro, através das vidraças da montra, mas resolveu não entrar.
Subiu a rua. Parou junto ao prédio mais alto de toda a cidade. Fechou os olhos. Apertou o nó da gravata e empurrou a enorme porta de vidro enquanto pensava se o elevador que o levava todos os dias ao seu escritório no nono andar, já estaria reparado.

sexta-feira, 9 de março de 2007

o sonho


O sonho... afinal sonhamos tão pouco...

terça-feira, 6 de março de 2007

por nada

Saiu para a rua enquanto todos dormiam.
A noite estava bonita, porém um pouco fria. O que não impedia, passo a passo, que fosse deixando a casa mais distante. Se olhasse para trás, já só iria vê-la lá ao fundo.
A brisa transportava o leve aroma salgado do mar; também o suave e calmo bater das ondas, lá em baixo transformadas em espuma, apenas visíveis por a noite estar tão clara.
Chegou-se à beira da falésia, olhou para baixo, abatido, e sentiu um arrepio. Deu dois passos atrás, enquanto tentava controlar uma tontura que lhe distorcia a visão, já mais habituada à noite.
Sem mais movimentos, pensou no que é, no que sempre quis ser. Pensou no porquê de estar ali; em muitas coisas que ouviu, falou, e que viveu.
Deu mais dois passos atrás.
Regressou, pelo mesmo caminho. Pouco depois, já podia ver a casa, lá ao fundo.
Deitou-se. Fechou os olhos, logo depois de ter visto a claridade da noite, para lá das cortinas.

domingo, 4 de março de 2007

o momento

O momento... podemos fazer tantas coisas... e em tantos momentos... pode fazer a diferença.

sábado, 3 de março de 2007

desejo corado de doçura

Todos os anos, muito perto da chegada do Inverno a sua mente alterava-se. Ficava preenchida por um só pensamento. E por esses dias, sem pensar em mais nada, espreitava da janela do seu quarto, no primeiro andar, insistentemente, à procura do melhor momento para agir. Magicando a melhor maneira de abordar a situação.
Era um desejo enorme e infalível, aquele que a invadia e incendiava. Aquele que a fazia desabotoar-se. Que lhe ocupava a alma, e lhe fazia crescer água na boca, de doçura. Aquele amor corado, cheio de vitalidade.
Então numa linda manhã, sob uma sublime e misteriosa neblina, saiu de casa, excitada. Esgueirava-se pelas ruas, por entre os muros e as sebes, tentando passar despercebida, e num gesto repentino, saiu da estrada. Atravessou os campos, até que chegou ao deslumbrante laranjal.
Sentia-se atravessada por uma deliciosa emoção. Que lhe colmatava as carências.
Sem hesitar, abriu o casaco, e encheu-o de fogosos citrinos, e correu para casa.

sexta-feira, 2 de março de 2007

a certeza


A certeza de que se todos os seres inanimados ganhassem vida, tudo seria muito diferente.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

a vida pintada de branco

O vento que assola, que desola, não perturba. Parece que... até dá força.
As escarpas brancas (será que de medo, talvez de lhaneza?), continuam lá. Firmes como sempre. Mas estas têm um sentido especial. Junto delas está a vida.
A sua vida, ou... as vidas a que deu origem.
Este ano não está fácil. É preciso ir longe. E desta vez até foi rápido.
Finalmente. Lá estão eles. Mais esfomeados que nunca. Parece que começam a perceber o que está para chegar.
Alegria saciante. O caminho para o tempo percorrido, e sem esquecer o que falta afirmar.
É esta a lei da procura do destino, de uma incansável ave de rapina.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

a magia


A magia de um fim de tarde de fevereiro na praia da Foz do Arelho (Caldas da Rainha), junto à aberta da Lagoa de Óbidos.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

águas serenas também se agitam, também serenam

Junto ao rio a vida passa devagar. Acompanha a descida das águas. Que sobem com as chuvas e com as marés, cobrindo a areia dourada ao sol de verão. Areia que acolhe as redes e os pequenos barcos em manutenção.
Só ali se pode beber a beleza do chapinhar tímido da rasa ondulação, e dos gritos serenos das aves, em concordância com o cantar suave dos pinheiros, que dançam uma leve valsa, embalados pela aragem delicada.
Nas águas prateadas as tainhas saltam alegremente, lançando para o céu azul, aqui e ali cuidadosamente ornamentado por grossas pinceladas de branco, feixes de luz intermitente. Numa comunicação de esperança, visível de todo o universo. Envolta numa generosa declaração de paz, que faz bater o mais pesado dos corações, sepultado e empedrado na imensidão de infortúnios e contrariedades.
Corações escorraçados de si mesmos. Desabrigados, deambulando vazios de ambições e emoções. Sem um sentido. Sem orientação. Inflamados apenas pelas razões aparentes. Inconsequentes. Impregnadas de vícios que desconhecem. Doentes por falta de sangue frequente. Rasgados por excessos, que não fazem falta. Que apenas poluem a abundância.

Mas voltemos ao rio, que continua a correr, genuíno.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

palavra tabu


As palavras que não digo.
As palavras que não quero dizer.
Aquelas que ninguém quer ouvir.
As outras que falam por si.
As que ficam por dizer.
Afinal as que comparecem.

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